16/02/2017 às 07h08min - Atualizada em 16/02/2017 às 07h08min

Máquina cara e sangrenta de enxugar gelo

João Tancredo - Direto da Redação

Divulgação

Desde o dia 3 de fevereiro, os policiais militares do Espírito Santo iniciaram uma greve reivindicando uma série de importantes demandas. Desde então desencadeou-se uma avassaladora escalada de violência que chamou atenção de todo o país. Enquanto isso, no último dia 28, no Rio de Janeiro, um PM transmitiu seu suicídio, ao vivo, nas redes sociais. Nesse contexto, familiares de policiais de diversos estados empenham-se para chamar atenção para as necessidades do setor, uma vez que estes estariam impedidos de promover paralisação ou greve.

Essa conjuntura de crise enfrentada pelos policiais militares, representado pelo caos instaurado no Espírito Santo, lança luz sobre discussões relacionadas à segurança pública, condições de trabalho e pagamento dos servidores da área de norte a sul do país.

Há décadas, as polícias, principalmente as militares, reivindicam melhorias devido à falta de material, carência de treinamento, baixo salário e reajustes reais. Somam-se a isso as velhas queixas quanto aos benefícios para alimentação, saúde e adicionais por periculosidade e insalubridade. 

Dados recentes do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) apontaram que 15,6% dos chamados agentes da Lei, entre eles policiais civis, militares, rodoviários, federais, bombeiros e guardas municipais, já tiveram algum tipo de distúrbio psicológico detectado por conta do trabalho. Cerca de 100 mil oficialmente afetados, porém o número certamente é muito maior, diante das dificuldades enfrentadas pelos profissionais em seu diagnóstico e apoio para afastamento. Falta estrutura e sobra preconceito.

Transbordam os motivos para esse preocupante quadro da saúde psicológica, física e financeira dos policiais, que colocam cada vez mais pólvora na bomba que se tornou a segurança pública. Precisamos compreender que nessa guerra todos nós saímos perdendo. Se existissem dois lados nessa história, de um estaria a segurança pública, vista como manutenção de uma ordem fictícia através da violência e do medo, fazendo com que a sociedade civil e a legislação sejam cotidianamente violentadas. Do outro lado estariam os policiais matando e morrendo diariamente.

Não há dúvidas de que a proposta de segurança pública historicamente imposta e reproduzida não está trazendo benefícios ou garantias para a sociedade, tampouco para os policiais. Precisamos urgentemente repensarmos amplamente as políticas de segurança pública no país, que se mostraram uma máquina cara e sangrenta de enxugar gelo.

*João Tancredo é Advogado  

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