23/11/2016 às 12h02min - Atualizada em 23/11/2016 às 12h02min

SALA DE ESPERA

Saulo Soares - Direto da Redação

Amigo leitor, esta coluna pretende-se uma pequena pausa no veloz ritmo que rotineiramente nos é imposto; um sopro no quente copinho de café enquanto intui-se um pensamento bobo, qualquer, despretensioso.  Nem mais, nem menos.

            Dito isto, ocorreu-me a lembrança do que observei, dia desses, numa sala de espera. Como se sabe – salvo exceções – as salas de espera nos colocam em estranhas situações: pescoço levantado para ver a televisão que chuvisca; pescoço abaixado para ler as revistas em que chuviscam socialites em seu mundo diverso, Photoshópico. Um meio sorriso para a senhora do lado, um bocejar contido pelas mãos, um menear de cabeça a discordar da notícia que se leu e, assim passa – muito devagar e numa desconhecida dimensão – o tempo nas salas de espera. 

            No sofá em frente, um senhor: óculos de lentes não muito espessas, armação sóbria e escura, bigode com fios grisalhos e desalinhados, pele curtida pelo sol, sandália tipo franciscano, gasta; calça social, camisa quadriculada com finas linhas na horizontal, um pouco mais grossas na vertical e em graduação de cores, com fundo branco; gola – uma em pé (como orelhinhas de cachorro) outra deitada – cabelos por cortar, penteados com creme e para trás, onde as ondas teimavam em não lhe obedecer. Suas mãos: calejadas, não se fechavam. Mãos sempre abertas, senhores!

            Mas ele - não lhe disse amigo leitor - tentava ler uma revista. Pois bem. Folhear uma por uma, as páginas, mas (que pena!)... não conseguia. Suas grossas digitais não lhe permitiam tal suavidade. A cada vez que ousava tentar, diversas folhas se passavam juntas, como os dias nossas vidas... Pobre senhor (poderíamos deduzir)! Lia e relia, indefinidamente, a capa da revista. De fato, ele é quem tinha estórias a contar...

Senti pena, porém ele... sorria. Se vivo fosse, um grande amigo diria que ele “ria que nem manteiga”. Tinha uma sabedoria silenciosa, monástica e uma realeza que vai além do vão glamour. Rico senhor (diríamos, agora, sem sombra de dúvida!)! Parecia, ao olhar as revistas, sentenciar: “Há pessoas tão pobres, mas tão pobres, que só têm dinheiro...”

 

            A vida é um pouco assim, paciente leitor: dia após dia, trabalhando tanto e tanto mais, às golfadas o tempo vai engolindo as horas, engrossando nossas mãos, calejando-nos o coração. Mãos abertas, senhores, mãos abertas...

 

Grande abraço,

 

Saulo Soares

 

saulosoares@uol.com.br

 

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